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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

A crise da Verdade

 

550_gaiola1Estamos vivendo uma crise mundial. Pior do que qualquer crise financeira, não é a tão falada “Crise dos Valores Morais”, mas sim a crise do valor moral por excelência: A Verdade. Em que devemos acreditar? Em quem devemos acreditar? Devemos acreditar? A verdade perdeu tanto o seu valor, que existem até fábricas especializadas em produzi-la em grande escala com a qualidade de uma fabricação artesanal cuidadosamente trabalhada sem quase defeito algum.

Perceber isso não é fácil em dois sentidos. Não é fácil pela dificuldade que existe em se detectar as falhas de tal “verdade”; e não é fácil no sentido existencial, uma vez que sem uma verdade, em que poderemos nos agarrar? Por onde podemos caminhar seguros?

Mas antes de qualquer análise acerca de tal crise, tentemos entrar em consenso acerca do que pode ser a verdade. Para tanto, prefiro utilizar de forma superficial, a concepção lógica da verdade enquanto adequação do pensamento – ou da fala – com a coisa mesma. Ou seja: uma sentença só é verdadeira quando existe uma correspondência entre o que se diz e a coisa em si. Por exemplo: dizer que o ar é essencial à vida humana é verdadeiro justamente porque o conteúdo dessa frase corresponde com a realidade de que a sobrevivência humana é extremamente dependente do ar e, que sem este, não há possibilidade do homem permanecer vivo. Nesse caso, qualquer outra afirmação contrária a essa é considerada falsa. Por que eu disse falsa ao invés de mentirosa? Porque nem sempre uma inverdade é uma mentira. Eu posso afirmar algo que não é verdade pelo fato de estar enganado, e nesse caso ocorre um erro. Eu acredito no que estou dizendo sem saber que o que eu digo não corresponde com a realidade. No entanto, quando se declara uma sentença inverídica tendo a consciência de que tal sentença não corresponde com a verdade, aí temos uma mentira. Ou seja, a mentira é uma inverdade moral. É a moral (ou falta desta) do sujeito ao fazer uma afirmação falsa que vai determinar se o que foi dito é um erro ou uma mentira.

Outro ponto a ser destacado acerca da reflexão sobre a verdade é o seu caráter excludente. Para tanto, trago a esse texto os três princípios lógicos sobre os quais todo raciocínio deve ser construído: o “princípio de não-contradição”, o “princípio de identidade” e o “princípio do terceiro excluído”. O primeiro diz que “uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo sob os mesmos aspectos e sob as mesmas condições”, em outras palavras, “nenhuma proposição pode ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo”. Exemplo: “O sol é quente e não é quente”. Já os outros dois princípios afirmam que uma proposição verdadeira é verdadeira, e uma falsa é falsa. Não há outra possibilidade; e que a uma afirmação verdadeira é excludente. Ou seja, dizer que todo homem é mortal exclui qualquer possibilidade de imortalidade do homem enquanto ser vivo (sem querer entrar na questão de crença espiritual).

MARKETING ALVOPara tentar ser mais claro, me utilizo de dois exemplos. Primeiro uma imagem: um alvo. Em seu centro o minúsculo ponto atingível por apenas um único dardo e nada mais. Nenhuma sobra para qualquer outro dardo tocar o ponto único. Ao seu redor, um grande espaço atingível. Alguns próximos ao ponto único, outros distantes, ou seja: uma enorme quantidade de possibilidades alcançáveis e fixáveis de locais para se jogar os dardos. No entanto, só há uma possibilidade de se acertar o alvo. Qualquer outro ponto atingido será um local errado. Assim é com a verdade: fazer uma afirmação verdadeira exclui de imediato qualquer outra afirmação contrária. E mais: ao perceber isso vemos que só há uma verdade e infinitas possibilidades de erros e mentiras. Uma outra imagem que evoco para tentar ser mais claro é a de uma questão de múltipla escolha numa prova: só há uma sentença correta; as demais são falsas. Marcar a alternativa correta significa dizer que todas as demais são incorretas, isto é, que qualquer outra é necessariamente falsa; no entanto, marcar uma alternativa incorreta não garante a correta. Para ser mais claro: Se tivermos cinco alternativas e marcarmos a correta, qualquer uma das outras quatro obrigatoriamente estará errada; mas se marcarmos a errada, não se pode determinar qual daquelas que é a certa.

Acredito que depois de toda essa tentativa de norteamento lógico podemos adentrar no nosso problema contemporâneo. Não temos aonde nos apegarmos. A verdade virou objeto de manipulação midiática que nos deixa totalmente perdidos. Temos uma tendência em acreditar nos telejornais como se eles fossem totalmente isentos de duvidosidade. Ainda mais quando se utiliza uma frase mágica para dar valor de mais alto grau de veracidade ao que é dito: “foi comprovado cientificamente”. Dizer isso parece causar uma paralisia mental aonde não se consegue nem exprimir algum questionamento acerca de tal sentença. E mais: como nos exemplos acima descritos – do alvo e da prova – qualquer outra possibilidade é excluída por ser considerada falsa.

O problema maior é que essa tendência à mentira (digo “mentira” porque estamos lidando no âmbito da moral) tem tido um caráter de obrigatoriedade em nossa sociedade como um todo. Ora, se aqueles que deveriam ser “obrigados” a portar a verdade mentem descaradamente, somos todos autorizados a fazer o mesmo. Isso quando não somos impelidos a reverberar mentiras por acreditarmos em tais palavras (e nesse caso incutimos em “erro”).

Tendo tudo isso em vista, sentencio sobre as questões acima: não há onde se apegar. Não há caminho seguro por onde podemos caminhar. Se somente a verdade liberta, como diz as Sagradas Escrituras, estamos então todos condenados a viver em gaiolas cada vez mais menores e sufocantes.

 

E assim vou sobrevivendo…

… Na medida do sensível

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