Nessas últimas 4 semanas de crises constantes e intensas de enxaquecas, as várias idas aos hospitais, clínicas e consultórios me fizeram analisar vários problemas dessa nossa tão malfadada e mal falada sociedade moderna. Dentre eles, destaca-se o que eu nomeio como “a des-sacralização dos lugres não-sagrados, mas antes vistos como tais”. Tento me explicar.
Algo que (percebam quão irônico é) cresce silenciosamente nessa sociedade, trazendo enormes prejuízos emocionais e psicológicos é o barulho (perceberam?). Vivemos em meios muito barulhentos e não percebemos o quanto estamos sendo e seremos ainda muito mais afetados negativamente por tanta falta de quietude. Era absurdo chegar imerso em dores no hospital e não ouvir apenas os gritos daqueles que, assim como eu, já sofriam por demais suas lástimas fisiológicas; mas ainda ter que ouvir os celulares em sues volumes máximos tocarem hits como “eu quero tchu, eu quero tcha”, além de escutar toda a conversa dos dois lados da linha uma vez que o volume do receptor do aparelho era altíssimo. Em meio a essa disputa telefônica, nós, convalescentes, também éramos obrigados a ouvir disputas intermináveis de mulheres querendo levar a melhor (ou a pior… Não sei bem…) no quesito “quem tivera mais doença que a outra”. Ou até mesmo ouvir pessoas discutindo política nos corredores do Pronto socorro. Ora, um local onde se costumava ver a famosa imagem de uma enfermeira com o indicador em frente aos lábios solicitando encarecidamente que se fizessem silêncio; hoje não me admiraria ver a mesma enfermeira tendo agora as mãos tapando os ouvidos por não aguentar tanto barulho dentro de um hospital.
Situação não diferente também presenciei em dois consultórios médicos em que fui atendido. Muito barulho: criança gritando, celular tocando, pessoas falando alto em suas competições olímpicas nas modalidades de “revezamento de doenças 4 por 4”, “Doenças Ornamentais”, “Doenças Sincronizadas” entre outras… Todas elas exibindo suas medalhas, ou seja, as cicatrizes. Mas o que eu fiquei mais abismado foi o fato de, essa barulhada ser permeada por xingamentos. Sim, xingamentos. Um recurso linguístico antes utilizado basicamente por homens em certos lugares e ocasiões estão hoje sendo proferidos em locais onde se dirigiam um respeito sacro como clínicas e hospitais; e mais: saindo dos lábios de seres também considerados antes angelicais como as mulheres e as crianças.
Não sei se minha cabeças doía mais ainda por conta disso tudo, ou se era pelo fato dela estar doendo tanto que havia em mim uma sensibilidade tamanha para perceber tais absurdos. O fato é que não há mais respeito. E não pense que eu estou dizendo desses locais simplesmente pelo fato de serem locais. Esses locais não possuem uma sacralidade em si, mas sua sacralidade esta no fato deles abrigarem aquilo que de fato é sacro: o ser humano em sua fragilidade. Um homem doente é sacro porque o sagrado maior, que é a vida, encontra-se nele em um movimento diferente daquele em uma pessoa saudável. Um homem frágil precisa de respeito, de silêncio, de reverência. Por isso devemos ser mais sensíveis e revalorizarmos o local sagrado, que não é o hospital, clínica ou consultório, mas sim o homem fragilizado – o homem doente: o frágil sacrário da vida.
E assim vou sobrevivendo…
… Na medida do sensível










